Os vira-latas estão no poder
” Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.” – Nelson Rodrigues, Complexo de vira-latas (31 de maio de 1958).
Quando o Brasil foi escolhido para sediar dois dos mais importantes eventos esportivos mundiais, o discurso do governo pareciam tentar convencer de que o país havia se tornado primeiro mundo da noite para o dia. Porém, os maiores ganhadores foram, novamente, os políticos que puderam desfrutar de duas viagens para o exterior compondo fartas comitivas que vergonhosamente demonstram que a única coisa que este país leva à sério é o futebol. E agora, as Olímpiadas.
O ponto mais marcante disto tudo, foram os ministros e presidente do país dizendo em alto e bom som que o brasileiro havia se livrado do “famoso complexo de vira-lata do Nelson Rodrigues”. Bom, eu nem sabia que este complexo era famoso ou que fora cunhado por Nelson Rodrigues. Graças a internet, pude correr atrás da fonte (aqui).
Vamos aos fatos. O Brasil ocupa, pelo Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU (aqui), o 75º lugar na classificação mundial entre 182 países listados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Septagésimo quinto lugar. Fica atrás de outros países latinos-americanos como o Chile (44º), Argentina (49º), Uruguai (50º) e Venezuela (58º). E de países que passaram pelo regime da antiga URSS: Hungria (43º) e Lituânia (46º). Quer mais? Ficamos atrás da Bielorússia, da Romênia, de Trinidad e Tobago, Panamá, Arábia Saudita e outros países que eu sequer sabia que existiam. É para comemorar?
Sem falar em outras pesquisas em que o Brasil registra novamente desempenhos vergonhosos, como o que mede a corrupção política e o ambiente para negócios. Além de problemas que não precisam de índice mundial para serem sentidos: violência urbana, saúde precária, infra-estrutura capenga, educação abandonada e uma carga de impostos sufocante (o que acha de deixar quase 40% do que você produz anualmente nas mãos do Estado e ver as coisas nas mesmas condições de sempre?).Pergunto novamente: é para comemorar?
Comemorar o quê? Nós temos a responsabilidade de sediar. Conseguir sediar, será outra coisa. É possível ter algum pingo de confiança em transparência nos gastos, diante de tantas denúncias de propinas, desvios e superfaturamentos? Gerir o país não é desafio suficiente para os políticos corruptos, incompetentes ou simplesmente vagabundos que temos? Não, pois sediar uma Copa e uma Olimpíada é muito mais divertido. Altas possibilidades de ganhos e é simplesmente uma festa mundial, no final das contas. E se ambos eventos forem geridos da maneira que gerem o Brasil, prevejo desastre em rede internacional de TV.
Mas eu digo que não existe o complexo. O brasileiro, quando nasce, em nada deve a um europeu, norte-americano, japonês recém-nascidos. O que diferencia é o durante. A educação que recebe, a saúde que lhe é dada, a valorização e a meritocracia de suas conquistas garantidas por instituições jurídicas e o retorno dos seus impostos. Isto é a diferença. E quem deveria fazer esta diferença pender a favor do brasileiro? Adivinhou: o Estado. Exatamente este Estado que tenta convencer de que está tudo bem agora. Que o Brasil já é outro e tudo está melhor. Quer o povo dócil e garantir a continuidade da elite política vigente, focada nos próprios interesses, sem visão de longo prazo e se utilizando de práticas assistencialistas e medidas de remendo.
Não existe o complexo de vira-latas entre o povo. Existe a sensação de que poderíamos ser mais. Que as qualidades do povo poderiam superar suas facetas negativas e nos tornar admirados por outras nações e, o mais importe, por nós mesmos. O tal do orgulho de ser brasileiro, não só dentro dos estádios de futebol.
Os verdadeiros vira-latas estão no poder. E eles morrem de medo que eleitores percebam isto e exijam mudanças, votem conscientemente e paulatinamente os substituam por puro-sangues. Pessoas de elite que vivem entre nós e estão aptas a liderar-nos com visão de estadista.
Estou ciente de que posso ter me excedido, ido para a utopia. Mas se ninguém aparecer e dizer que está tudo errado e propor algo totalmente diferente do atual, como outros saberão que não estão sozinhos quando se corroem de raiva ao ver mesquinhes, ignorância, vaidade, despreparo e lamaçais de sujeira quando olham para os seus representantes?
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janeiro 10, 2010 às 1:22 pm
Nelson Rodrigues cunhou esse termo um mês antes do Brasil conquistar o seu primeiro campeonato mundial de futebol em 1958 na Suécia. Após a conquista todos se insurgiram contra ele, acreditando que uma conquista esportiva mudaria o país e, principalmente, lavaria a nossa “honra” maculada pelo vexame de 1950 no Maracnã. Como qualquer politico que se preze usa e abusa do binômio “pão e circo”, JK capitalizou os louros da conquista para o governo dele. Mesmo na ditadura o futebol era usado como ferramenta política, tentando aproximar o povo de um governo que não empolgava a massa. Ou seja, todos os pólíticos usaram e usam o que de mais popular existe para se promoverem, incluindo o (des)governo atual. Infelizmente a opção pela educação foi abandonada há muito tempo, especialmente por ser um investimento a longo prazo e não trazer os retornos imediatos que o brasileiro aprecia. Pobre do país que depende de ídolos que mal conseguem usar a cabeça…
junho 16, 2011 às 2:04 pm
[...] é o último refúgio de um canalha, já dizia Samuel Johnson. Até ressuscitaram o tal “complexo de vira-lata” para jogar mais pilha na utopia de que o Brasil seria capaz de sediar um evento que traz [...]